Uma vaga de manequins de medidas grandes, que vestem até ao 48, invadiu o mundo da moda. Para muitas mulheres (Normais) há uma nova esperança…

A felicidade de umas é o desgosto de outras. Chega aquela época do ano, a apresentação das novas coleções, as espectadoras longilíneas sentadas na primeira fila sonhavam com as suas peças preferidas – enquanto, as outras (normais), em casa, perdem o sorriso ao imaginar a impossibilidade física de caberem dentro daqueles pedaços reduzidos de tecido com marca famosa…

Até à passada sexta-feira 17, quando, na Semana da Moda de Nova Iorque, um desfile usou, na íntegra, manequins de tamanhos XL. O evento dava pelo nome de OneStopPlus.com show, e devolveu o sorriso a milhares de meninas e mulheres do mundo todo, que assistiram em casa através da televisão.

Dado comprovado: A maioria das mulheres do planeta não tem as mesmas medidas das manequins. Por isso, nada mais natural que, mais cedo ou mais tarde, surgisse roupa e modelos para a restante da população feminina dita normal – que veste do número 36 para cima, e que também consome roupa.!!! Foi assim que surgiram as modelos plus-size (“tamanho XL”), a provando que há mulheres bonitas com muitas curvas e carnes. Mesmo que vistam um 44, 46, 48…

A tendência das modelos plus-size tem maior visibilidade nos EUA, onde um segmento significativo da população é grande, do que na Europa. Um dos momentos decisivos deu-se em 2008, quando uma manequim de tamanho 42-44 ganhou o cobiçado “America’s Next Top Model”, o concurso apresentado por Tyra Banks. Whitney Thompson, uma bonita loura de olhos verdes e 1,78 m, provava haver mercado que justificasse a sua eleição como melhor manequim da grande nação americana. Na Europa, estilistas do calibre de Jean-Paul Gaultier e John Galliano já tinham usado modelos XL nos seus desfiles de primavera-verão em Paris, em 2006, e os britânicos William Tempest e Mark Fast seguiram-lhes as pisadas na Semana de Londres de Milão, em 2009.

Mas os holofotes acenderam-se com outra intensidade este ano, quando a “Elle” francesa fez capa com a modelo Tara Lynn, uma manequim de tamanho 48, de macacão branco, num número especial dedicado às curvas. Choveram comentários positivos. Centenas de mulheres davam a entender – como leitoras, espectadoras e consumidoras – que ansiavam por também se verem representadas no mundo da moda.
Um mês antes, a “Vogue” italiana lançou uma nova secção online chamada “Vogue Curvy”, dedicada às mulheres de curvas generosas. Em janeiro, a revista americana “V” tinha feito uma edição especial sobre manequins plus-size, e em setembro de 2009, a “Glamour” fez furor com a fotografia de uma manequim de tamanho 48, nua, com a barriga pendente. Era Lizzie Miller. O sucesso foi tal que na edição de novembro, a revista repetiu a fórmula com uma foto de grupo de seis modelos volumosas e integralmente nuas. Muita carne à vista de todos.

Questionando o conceito de beleza…

Em maio deste ano, dois meses depois da capa da “Elle” com Tara Lynn, Penélope Cruz foi convidada para editar a “Vogue” francesa. E imaginem quem a atriz latina escolheu para capa? Crystal Renn, modelo de tamanho 44, presença habitual das passerelles de Jean-Paul Gaultier. O ensaio, provocador e sensual, e a capa, fizeram de novo correr tinta sobre o tema, levantando questões sobre o atual conceito de beleza e saúde no mundo da moda, e se este pode ou não ser alargado ao mundo real.

Estilistas e colunistas dividiram-se, com gurus como Karl Lagerfeld a defender que a moda existe para gerar “sonho e ilusão” e não para retratar a realidade, tendo afirmado que “quem critica as manequins por serem demasiado magras são as mãezinhas gordas que se sentam com um pacote de batatas fritas em frente à televisão”. Já o estilista norte-americano Michael Kors exprimia uma opinião distinta num fórum na Universidade de Harvard sobre estas questões: “A indústria da moda está a voltar a dirigir-se às mulheres reais. O ênfase desviou-se para mulheres que são mulheres e não miúdas.”

Um dos fatores decisivos, para lá do ideal estético, será muito provavelmente o mercado. A percentagem de população obesa e com excesso de peso continua a crescer (segundo a Organização Mundial de Saúde serão 1,5 mil milhões de obesos em 2015, no mundo). E já há, nos EUA, agências exclusivas de modelos grandes (www.plusmodels.com), cujo slogan afiança que a beleza não tem de vir apenas em tamanho 36.

Em Portugal, asseguram-nos que a tendência passou quase despercebida em termos de procura nas agências de modelos. Mas na vizinha Espanha, existe uma série de agências com manequins XL.

A Francina Models é uma das que tem uma secção específica de manequins grandes, com 19 modelos de formas generosas, que representam 5% do volume de negócios. Marcas como a Adolfo Dominguez, Mango, Pronovias ou a Venca são algumas das que têm linhas XL e procuram modelos com tamanhos a condizer.

Para Mercedes Fernandez, promotora da Francina, esta tendência “veio para durar, pois há muitas mulheres a vestir acima do 38. Algumas sentem-se escravizadas pela pressão de estar em forma. É normal que haja marcas com tamanhos grandes. Mas, sobretudo”, diz ela, “o mundo está cheio de pessoas de todos os tipos, géneros e tamanhos, e ninguém tem o direito de dizer que ‘mais magro é mais bonito’. “Ser bonito é ser saudável, ter um ar saudável e agir de forma saudável”, considera.

Por outras palavras, diz o mesmo Velvet d’Amour, ex-manequim plus-plus-size (veste o 48) que desfilou para Gaultier e Galliano: “Aprendi que uma das componentes mais importantes para parecer bonita é sentir-me bonita. Isso faz transparecer uma sensação de autoconfiança, o que conta em qualquer meio.”

Fonte: Expresso.pt